Na advocacia, alguns dos problemas mais difíceis não surgem de repente. Eles vão sendo construídos aos poucos, quase sempre acompanhados da mesma frase: “Depois eu resolvo isso.”
Enquanto tudo está bem, parece que não há motivo para se preocupar. A família convive bem, os bens existem, a vida segue. Mas basta surgir uma venda, um divórcio, um falecimento ou qualquer outra mudança importante para que questões esquecidas há anos apareçam de uma só vez e precisem ser resolvidas justamente quando há menos tempo, menos energia e mais emoção envolvida.
Este artigo não tem a intenção de gerar preocupação desnecessária. Tem a intenção de mostrar que algumas situações muito comuns podem ser evitadas (ou pelo menos muito simplificadas) quando há planejamento prévio. E que reconhecer essas situações com antecedência é, em si, uma forma de cuidar do patrimônio e de quem você ama.
1. Você sabe se os imóveis da sua família estão regularizados?
Um imóvel que nunca foi regularizado pode valer menos do que parece, e você pode descobrir isso justamente quando mais precisar: na hora de vender, de financiar ou de fazer um inventário.
Imóveis sem registro atualizado, com escritura em nome de pessoas já falecidas ou terceiros, sem averbação de construção ou com documentação incompleta são muito mais comuns do que se imagina, afinal, cerca de 50% dos imóveis do Brasil tem algum tipo de irregularidade. E enquanto nada muda, essa situação passa despercebida. O problema aparece quando há urgência, e aí o que seria uma regularização simples pode se transformar em um processo longo e custoso.
Verificar a situação documental dos imóveis da família é um passo básico de planejamento que pode ser feito com tranquilidade quando não há pressão de tempo.
2. Se você vai casar, já conversou sobre patrimônio?
Ignorar o tema não significa que ele deixa de existir. Significa apenas que você está aceitando as regras sem saber quais são.
No Brasil, o casamento produz efeitos jurídicos automáticos sobre o patrimônio, e esses efeitos variam de acordo com o regime de bens escolhido. Sem essa escolha consciente, a lei aplica um regime padrão que pode não corresponder ao que o casal desejaria se tivesse conversado sobre o assunto.
Quais bens cada um traz para a relação? O que será compartilhado e o que permanece individual? O que acontece com o patrimônio em caso de falecimento de um dos dois? Essas perguntas têm respostas jurídicas muito diversas caso a caso e é muito melhor que o casal as conheça antes, não depois.
3. Seus pais já conversaram com vocês sobre os bens da família?
Quando essa conversa nunca acontece, os filhos podem se deparar com um verdadeiro quebra-cabeça no momento mais difícil.
Descobrir quais imóveis existem, onde estão os documentos, quais contas bancárias precisam ser localizadas, se há dívidas ou obrigações pendentes, tudo isso costuma acontecer no meio de um processo de inventário, com prazos correndo e emoções à flor da pele.
Uma conversa simples sobre o patrimônio da família, feita enquanto todos estão bem e há tempo para organizar, pode poupar meses de esforço e muito desgaste entre irmãos.
4. Você já pensou no que seus filhos vão enfrentar se nada for planejado?
Acreditar que os filhos resolverão tudo depois não é uma solução. É transferir para eles um problema que, muitas vezes, custa anos de desgaste, dinheiro e conflitos familiares.
Inventários sem planejamento podem se arrastar por anos. Patrimônios mal organizados geram disputas entre herdeiros que, antes disso, tinham uma boa relação. Imóveis irregulares travam processos inteiros. E decisões que seriam simples de tomar em vida tornam-se fonte de conflito quando precisam ser interpretadas por terceiros.
Planejar a sucessão não é um ato de pessimismo. É um ato de cuidado com quem virá depois.
5. Você acha que essas situações só acontecem com outras famílias?
Esse talvez seja o ponto mais importante. Porque quando essas situações chegam ao escritório, quase sempre começam com a mesma frase: “Eu queria ter resolvido isso antes.”
Não se trata de famílias desestruturadas ou de patrimônios mal administrados. São famílias comuns, com histórias comuns, que simplesmente não encontraram o momento certo para conversar sobre esses temas. E que, quando precisaram, perceberam que o momento certo havia passado.
Reconhecer que essas situações podem acontecer com qualquer família é o primeiro passo para agir com antecedência.
Planejar não elimina todos os problemas, mas pode evitar os que você já consegue prever.
O planejamento jurídico não é uma garantia contra todos os imprevistos da vida. Mas é uma forma concreta de evitar que situações previsíveis se transformem em problemas muito maiores do que precisariam ser.
Regularizar um imóvel antes de uma venda é infinitamente mais simples do que tentar fazê-lo no meio de uma negociação. Organizar o patrimônio enquanto todos estão bem é muito mais tranquilo do que fazer isso no meio de um inventário. Conversar sobre regime de bens antes do casamento é muito menos desgastante do que discutir patrimônio durante uma separação.
O melhor momento para essas conversas e decisões é sempre antes, quando ainda há tempo, clareza e tranquilidade para escolher bem.
Conclusão
Algumas situações são difíceis de encarar justamente porque exigem pensar em cenários que ninguém quer imaginar. Mas é exatamente por isso que merecem atenção.
Cuidar do patrimônio da família, organizar a documentação dos imóveis, conversar sobre sucessão e tomar decisões conscientes sobre regime de bens são formas concretas de proteger o que foi construído e de evitar que os próximos precisem resolver, no pior momento, o que poderia ter sido organizado com calma. E para isso, a orientação jurídica é uma aliada imprescindível.
Saiba mais:
Curatela, planejamento patrimonial e longevidade: o que casos recentes mostram
Quais os riscos de não planejar a vida patrimonial do casal?